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Edição #9
Rio de Janeiro, 2006

By Lana Hosser

Entrevista com Luciano Vianna, DJ e promoter da festa carioca PLOC

Desde os primórdios até hoje em dia

Banda de Guarulhos que vem agitando a cena metal brazuca

A década que mudou o mundo

Carlota Joaquina feelings...

Combatendo o puritanismo cultural

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“DKANDLE tece paisagens sonoras transcendentes vibrantes e multicoloridas, misturando texturas Shoegaze difusas e reverberantes, meditações Dream Pop hipnotizantes, tons Grunge lamacentos e tensões Post-punk temperamentais, intensificadas com lirismo comovente e vocalizações emotivas e pensativas”

TAGS: culturadrogasmaconhamúsicarockundergroundvídeos

Publicado originalmente na edição especial "Os Anos 60: A Década que Mudou Tudo" da revista Veja

De 1960 à 1969, em cada um dos cinco continentes, em quase todos os 145 países de vários sistemas políticos, o mundo conheceu a rebeldia dos jovens. Ao lado das guerras - e mais do que o sexo -, as manchetes dos jornais falavam da odisséia de 519 milhões de inconformados.

Mutantes da nova "era oral e tribal em dimensões

planetárias, produzidas pelas comunicações de

massa", segundo Marshall McLuhan, os jovens -

um sexto da população Terra - eram ao mesmo

tempo mito e desmistificadores da sociedade.

Consumindo e consumidos, contestando e

contestados, eles lutaram com todas as armas

para destruir o velho e impor o novo.

Foram anos de luta e recusa, pacífica ou violenta.

A revolta juvenil, nos anos 60, deixou de ter simples motivações psicológicas (não mais uma "crise de adolescência") para ganhar componentes sociológicos novos e se constituir em problema social. De um dia para o outro, "a nossa esperança do amanhã" resolveu fazer o presente. Como afirmaram, era preciso deixar de ser objeto para ser sujeito da História. De eterna ameaça romântica e simbólica, eles passaram a ser destruidores de tudo o que estava estabelecido e consagrado: valores e instituições, ideias e tabus. Com a pressa que lhes davam a sua provisória condição e com a coragem da idade, eles afrontaram a moral vigente e arrancaram as pedras das ruas para com elas pôr por terra as estruturas da sociedade: capitalista ou comunista, de opulência ou de miséria.

Clandestinamente, dissimulada, mais difícil de

ser notada e reprimida do que o rosto da violência

ostensiva, uma outra face da juventude estava

surgindo. Não tinha ainda nome próprio e era

considerada demissionária dos beatniks dos

anos anteriores. Aos poucos foram captados

alguns de seus indícios. Em 1960 descobriu-se,

por uma pesquisa, que quatro entre cinco alunos

da Universidade de Harvard consideravam as

religiões tradicionais vazias de conteúdo

metafísico e não os ajudavam a encontrar a

verdade.

 

Um ano depois, um professor de psicologia da mesma Universidade, Timothy Leary, após experiências com um tipo de cogumelo mexicano que produzia a mescalina, de propriedades alucinógenas, prosseguia suas pesquisas aplicando 3.500 doses da droga em 400 estudantes voluntários que procuravam experiências místicas. Da mescalina, Leary

e seu assistente Richard Alpert passaram a usar outra

substância ainda mais poderosa, o LSD, uma sigla que iria

acompanhar grande parte da juventude naquela década. Em

pouco tempo, o número de "iniciados" cresceu

assustadoramente e já se percebia vagamente, dentro das universidades, aquela cara de cabelos despenteados e roupas desalinhadas. Esses jovens apresentavam uma diferença em relação aos outros. Detestavam a violência tanto quanto a sociedade da qual pretendiam se afastar cada vez mais. Negando a religião, mas buscando Deus no misticismo oriental, esses jovens foram aumentando rapidamente o seu quadro, e em 1962 o símbolo LSD já era conhecido das grandes faculdades americanas; dos alunos, mas não dos responsáveis e do público.

O escândalo só explodiria quando Timothy Leary, expulso de Harvard, apelou para a Justiça

e reclamou, em nome da ciência e da democracia, o direito de prosseguir suas experiências.

Em menos de uma semana, confusa, a América e logo o mundo tomaram conhecimento do

fenômeno "psicodélico". Leary foi preso e confessou já ter aplicado LSD em mais de mil

pessoas, metade das quais de formação religiosa, entre elas 69 ministros protestantes ou

padres católicos. Dessas pessoas, 75% reconheciam terem atingido um estado místico

religioso intenso, e mais da metade afirmou ter realizado a experiência mais profunda e real de sua vida.

 

A "revolução psicodélica" era o caminho que grande parte da juventude estava escolhendo ou iria escolher. A partir da metade da década ocorreu a explosão dos hippies floridos, adeptos do LSD e da Cannabis. Mas, paralelamente, um problema iria assumir proporções internacionais também a partir dos anos 65-66. A cada dia, em vários países - do Brasil ao Japão, dos Estados Unidos à Checosvoláquia - os estudantes substituíam a rotina das aulas pela rotina das greves, das manifestações, dos protestos e das ocupações de faculdades. Suas organizações políticas multiplicavam-se e os choques com a polícia tornavam-se frequentes. Protestos comuns iam dando um mesmo sentido às manifestações em várias partes do mundo: as demonstrações eram contra a guerra do Vietnam, contra o racismo, pela paz, pelos subdesenvolvidos.

 

Através de uma imensa variedade de formas, a juventude procurava romper com tudo:

com a universidade, com a família, com a arte, com os partidos. O que era novo

passou a ter um valor em si: a tradição tinha que ser destruída. Uma palavra percorreu

o mundo nessa tormenta furiosa de negação: contestação.

 

Mais do que os jovens, o mundo havia mudado. A sociedade industrial avançava

rompendo princípios, modificando as relações e as condições de vida; os meios de comunicação quebravam os valores regionais e introduziam uma cultura uniforme, sem fronteiras. Em face de valores como o amor, a liberdade, a justiça e a fraternidade, surgia uma nova realidade - o consumo - estabelecendo seus próprios valores: a eficácia, o sucesso, a competição. Mais eficazmente do que a sociologia na sua busca para configurar a juventude, as grandes organizações comerciais descobriram nos jovens todo o potencial do consumidor: em apenas quarenta anos, o número dos jovens até 24 anos duplicaria. Toda uma linha de produção - discos, roupas, espetáculos - foi concebida a partir deles para eles. Os personagens que os jovens tranformaram em ídolos (dos Beatles a Che Guevara), justamente porque tinham contestado o sistema, lhes foram devolvidos, comercializados: moda Mao, camisas com o rosto de Che, posters dos Beatles. O consumo transformava a contestação a ele, num rendoso produto de consumo.

 

Uma dinâmica nova surgia. Os jovens contestavam a sociedade e essa consumia a contestação. Uma busca desesperada de afirmação para fazer valer a sua negação passava a ser realizada em todos os campos - na moda, na pintura, no cinema, e sobretudo na música. As suas cores gritavam tanto quanto o seu som, agressivo e agônico. As boates românticas cederam lugar às discotecas onde tudo se agitava, sobretudo a luz e os corpos. O "rock'n'roll" dos anos 50 foi rejuvenescido pelo "twist" de Chubby Checker, depois pelo "jerk", "frug", "monkey", "surf", "let kiss", "drag", todos de curta duração, onde apenas os gestos e os nomes variam. Dançar tornou-se a forma mais imperiosa e exclusiva de expressão. Em Tóquio e Nova York, São Paulo e Paris, as discotecas e os conjuntos musicais se multiplicavam, assim como na Polônia, Hungria, Checoslováquia. Em todos os lugares, os Beatles. A essas extroversões ritmadas, opunham-se o recolhimento nas drogas. A busca das "viagens", das fugas e do "conhecimento de si próprio" acentuaram-se vertiginosamente.

 

Apontava-se como singularidade sociológica da juventude o fato de ela, por ser essencialmente transitória, não constituir uma categoria social. Mas os jovens estavam cada vez mais se agrupando entre si nos clubes, nas boates, nas concentrações. A insistência sobre o parecer (vestido, cabelos), sobre o gesto típico (linguagem própria, dança) já era considerada como um primeiro passo para se constituir como categoria social. As grandes concentrações - como a de Woodstock, onde centenas de milhares de pessoas se reuniram para falar de paz, de música e para viver dias de completa liberdade - demonstraram o sentido profundo da comunidade que estava se formando entre os jovens daquela década e a compreensão mística de si mesmos como um grupo à parte: um "nós" em franca oposição a "eles". "Eles" é o mundo adulto dos pais e sua impotência em viver os valores que pregam. "Eles" são também os sistemas sociais incapazes de preencher o vazio entre ideal e realidade. A constatação do fracasso da civilização criada pelas gerações anteriores - de guerras, injustiças sociais, violência, opressão - e a contemplação da massa amorfa de casos, dossiês e números em que às vezes o homem é transformado pela sociedade de consumo, explodiram na consciência dos jovens dos anos 60, que passaram a negar todas as manifestações visíveis dessa civilização.

Evadir-se ou participar da destruição da sociedade, eis a opção a que eles se

colocavam. Evadir-se foi a resposta hippie. Mais de 400.000 jovens, só nos EUA,

deram as costas à sociedade e saíram à procura de outras verdades. Os hippies

marginalizaram-se e tentaram uma revolução da moral e dos costumes. Os

jovens dos países socialistas reivindicavam liberdade política, enquanto os dos

países industrializados do Ocidente contestavam a civilização de consumo que

aliena o homem. No terceiro mundo, a luta era pela liberdade econômica.

 

"Vocês sabem o que está acontecendo?" Não, ninguém sabia. Formas obsoletas de luta eram desenterradas (a pedra, a barricada, o pau), templos do saber como a Sorbonne eram invadidos, ídolos de outras gerações como Sartre e o comunista histórico Aragon eram vaiados, carros incendiados, teatros tomados. A imaginação havia tomado o poder. Todos os valores oficiais e tradicionais eram escritos entre aspas e provocavam risos. As ruas eram rebatizadas por centenas de jovens eufóricos que escolhiam os novos nomes entre aplausos: Rua do Oriente Vermelho, do Vietnam Heróico, Rua Guevara. Bandeiras vermelhas e pretas flutuavam em monumentos austeros e cobriam relíquias históricas. O amor e a política passaram a ser feitos na rua.
 

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