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Edição #9
Rio de Janeiro, 2006

By Lana Hosser

Entrevista com Luciano Vianna, DJ e promoter da festa carioca PLOC

Desde os primórdios até hoje em dia

Banda de Guarulhos que vem agitando a cena metal brazuca

A década que mudou o mundo

Carlota Joaquina feelings...

Combatendo o puritanismo cultural

TAGS: ativismo, cultura

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“DKANDLE tece paisagens sonoras transcendentes vibrantes e multicoloridas, misturando texturas Shoegaze difusas e reverberantes, meditações Dream Pop hipnotizantes, tons Grunge lamacentos e tensões Post-punk temperamentais, intensificadas com lirismo comovente e vocalizações emotivas e pensativas”

"Não quero que minha casa seja cercada por muros de todos os lados e que as minhas janelas estejam tapadas. Quero que as culturas de todos os povos andem pela minha casa com o máximo de liberdade." - Gandhi

A QUESTÃO

O nacionalismo ressurgiu em todo o mundo. No

Brasil, ele se manifesta sobretudo na cultura,

que, no afã de valorizar "nossas raízes

populares", deixou de ser vista como um

repertório de grandes obras literárias,

musicais, filosóficas.


O PERIGO

Além de fomentar uma aversão injustificada ao que vem de fora, o nacionalismo cultural esconde o verdadeiro problema: as enormes deficiências do sistema educacional brasileiro.

O nacionalismo cultural, uma das ideias mais perigosas que jamais afligiram o planeta, está ressurgindo em toda parte como reação ao processo de globalização. A ideia é perigosa, porque a idealização da própria cultura tem como corolário a desvalorização da cultura alheia, o que estimula as rivalidades nacionais e as guerras, e também porque a invenção de um inimigo externo comum cria falsas solidariedades e silencia contradições internas. Essa ideia está renascendo na Europa diante da penetração crescente da cultura americana. Está renascendo nos Estados Unidos, cada vez mais convencidos de serem o povo eleito, designado por Deus para converter o mundo ao American way of life. E está renascendo no Brasil.

O nacionalismo cultural foi muito influente entre nós, desde a fase de consolidação de nossa independência. Tudo começou com o nacionalismo romântico de Gonçalves Dias. Depois vieram o nacionalismo científico de Sílvio Romero e Euclides da Cunha, o nacionalismo modernista de Graça Aranha e Oswald de Andrade, o nacionalismo regionalista de Gilberto Freyre e o nacionalismo autoritário de Azevedo Amaral. Comum a todas essas variedades é o tema da falta de originalidade de nossas elites culturais, sua tendência compulsiva a copiar modelos estrangeiros.

A partir dos anos 50, o nacionalismo deixou de ser predominantemente cultural e passou a ser político e econômico. Em parte, foi dessa índole o nacionalismo do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), para o qual a "redução" da cultura estrangeira tinha como objetivo principal a promoção de nossa autonomia socioeconômica, e mesmo o dos militares, para os quais o repúdio às ideologias "exóticas" estava a serviço de uma fantasia de grande potência.

Com o fim da ditadura militar, o nacionalismo político e econômico perdeu fôlego, mas houve uma curiosa regressão para o nacionalismo cultural. Essa regressão fez-se acompanhar de uma redefinição do conceito de cultura. Ela deixou de ser vista como um repertório de grandes obras literárias, musicais e filosóficas e passou a ser vista num sentido etnográfico, como conjunto de valores, tradições, modos de fazer e de sentir. Foi a hora e a vez da ideologia da "broa de milho". Essa tendência está se acentuando em nossos dias. Quanto mais o governo é acusado de dobrar-se a exigências neoliberais, mais faz questão de mostrar-se fiel a nossas raízes nacional-populares. Tudo se passa como se o nacionalismo cultural estivesse ocupando o vazio deixado pelo recuo do nacionalismo político-econômico.

Essa mudança de função não torna o nacionalismo cultural menos perigoso. Como toda ideologia, ele induz o que minha geração chamava "falsa consciência". Essa falsa consciência faz com que os nacionalistas lamentem o caráter "inautêntico" da nossa cultura e o atribuam à influência dos grandes centros hegemônicos, sem se dar conta de que grande parte do problema se deve a nossos déficits educacionais e ao impacto do lixo cultural difundido pela indústria eletrônica de massas. Ora, essa indústria pode ser estrangeira, mas pode também ser nacional. A cultura de massas americana é indesejável por ser cultura de massas, e não por ser americana. A cultura de massas brasileira produz resultados igualmente deploráveis.

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🙄
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💩

A verdade é que nas condições de um mundo globalizado, a cultura brasileira só poderá subsistir e se impor internacionalmente mediante a abertura para o mundo. Para mantermos nossa identidade cultural, temos de avançar, e não nos entrincheirar atrás de barricadas. Avançar significa, entre outras coisas, incorporar o que existe de melhor na cultura estrangeira. Não teríamos tido o cinema novo se Glauber Rocha tivesse sido impedido pelos nacionalistas da época de ler Cahiers du Cinéma, nem a bossa nova se eles tivessem retido na alfândega os discos de jazz.

O chauvinismo é um fenômeno social, e não necessariamente político. A sociedade brasileira abrigou no passado focos de chauvinismo antilusitano, como hoje tem nichos de chauvinismo antiargentino e principalmente antiamericano. Opor-se ao unilateralismo de Bush é dever de todas as pessoas de bem, mas é preciso velar para que essa crítica política não se degrade em xenofobia cultural. Há uma palavra de ordem contra o Halloween, pichada em várias paredes do centro do Rio, cujo tom é tão fascista que se chega a suspeitar que os autores da inscrição pertencem a uma organização de extrema direita. Aparentemente eles acham que só o Halloween é uma festa importada, e que o Natal já era celebrado pelos índios, com pinheirinhos cheios de luzes e flocos de algodão, quando Cabral chegou ao Brasil. Patologias desse gênero existem em todas as sociedades, mas elas podem traduzir-se em atitudes racistas quando estimuladas politicamente.

Certas importações são de fato irritantes, como acontece no caso da linguagem. Mas corrigir essas anomalias por decreto é uma anomalia maior ainda. Não há nada de mais provinciano que a legislação francesa que tenta impedir o uso de palavras estrangeiras, como se a própria língua francesa não fosse um amálgama de contribuições latinas, célticas e germânicas, e como se o inglês, contra o qual se quer defender o francês, não fosse constituído em altíssima proporção de palavras francesas levadas à Inglaterra pelos normandos. Uma lei semelhante no Brasil faria pouco sentido, porque o problema, entre nós, é que a maioria das pessoas não sabe português. Se quiserem que os adolescentes de hoje deixem de traduzir delete por deletar, tomem providências para que todos eles leiam Machado de Assis. Enquanto isso, eu não me preocuparia demasiadamente com deletar: é um neologismo, sim, mas já aceito pelo Aurélio e que, apesar da opinião de alguns puristas, me parece muito bem formado, construído a partir de uma raiz impecavelmente latina (delere, destruir, que subsiste no adjetivo indelével).

O famoso caráter "inautêntico" da cultura brasileira, provocado pela vocação mimética de nossas elites, é um falso problema. O verdadeiro problema é a estrutura de poder da sociedade brasileira. O que está em jogo não é saber se o Brasil copia ou não a cultura estrangeira, e sim examinar por que as relações sociais internas dificultam o acesso das classes populares à grande cultura, seja ela nacional ou estrangeira. A inimiga não é a cultura estrangeira, e sim a incultura, que condena suas vítimas a uma ignorância imparcial, impedindo-as de conhecer tanto Proust quanto Guimarães Rosa.

 

* Sergio Paulo Rouanet é filósofo, diplomata, ex-ministro da Cultura e autor de As Razões do Iluminismo

texto publicado originalmente pela revista Veja -
Edição 1886 . 5 de janeiro de 2005

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