top of page
tranzine.gif

Edição #11
Rio de Janeiro, 2008

podcast.jpg
DKANDLE_Tranzine.jpg

“DKANDLE tece paisagens sonoras transcendentes vibrantes e multicoloridas, misturando texturas Shoegaze difusas e reverberantes, meditações Dream Pop hipnotizantes, tons Grunge lamacentos e tensões Post-punk temperamentais, intensificadas com lirismo comovente e vocalizações emotivas e pensativas”

TAGSculturamúsicamúsica eletrônicaraveunderground, vídeos

MUNDO

De um ponto de vista histórico, o techno é um estilo baseado no house e no electro. O termo house se refere a um clube que foi fundado num galpão no porto de Chicago na metade da década de 80: o Warehouse. Soul, black e disco eram casados com batidas eletrônicas, as quais o DJ havia previamente produzido. Assim o DJ criava uma nova música a partir da combinação de outras duas músicas. A partir daí veio o fenômeno da mixagem, onde o DJ poderia teoricamente tocar uma música eterna. Alguns dos melhores DJs da época eram Frankie Knucles e Ron Hardy, que começaram como produtores, tocando suas músicas nos clubes e depois lançadas em selos como Trax e DJ International. Músicos como Ralphie Rosario, Mickey Oliver, Marshall Jefferson e Mr. Fringers desenvolveram uma House avant garde, lá pelo final dos anos 80.  

Enquanto Chicago era dominada pelo soul e pelo disco, um estilo orientado pelo minimal estava começando a surgir em Detroit, através de figuras locais como Juan Atkins, Kevin Saunderson e Derrick May. Este estilo tinha uma influência pesada de música feita por computador europeia como as do Kraftwerk e do Klaus Schulze (produtor do Tangerine Dream, entre outras coisas, e também de bandas new-wave e indie da Inglaterra, como Depeche Mode, New Order e Nitzer Ebb). Detroit deu origem ao techno.  

Uma coincidência em Chicago levou a um estilo paralelo chamado acid. Esse estilo na verdade significa um som típico que é criado usando certos tipos de sons de sintetizadores além dos de fábrica. Nathan Jones (aliás DJ Pierre) descobriu esta propriedade na Roland TB 303, que resultou numa música tocada na Warehouse. Ele declarou: "Eu comprei o 303 para programar linhas de baixo. Enquanto eu tentava descobrir o que cada botão fazia, notei a estranha modulação do som que já estava programada no 303. O acid já estava naquela máquina há muito tempo." Os frequentadores descreveram essa música louca como "ácida", que depois foi usada no lançamento de um vinil. O termo "ácido" tem mais a ver com o som ácido da música do que com a droga ácido (LSD).

Assim como os discos de house e techno americanos, os discos de acid também chegaram à Europa, e especialmente na Inglaterra tiveram uma ótima recepção, mesmo que não tivessem impacto para alcançar o mainstream. Na Inglaterra, um tipo próprio de cultura acid mais underground nasceu, através de DJs e músicos como Baby Ford e A Guy Called Gerald e do hino
We Call It Aciiieeed, do D-Mob. Pela primeira vez festas ilegais feitas ao ar livre aconteciam, encorajadas pela nova droga disponível, o ecstasy. Estas raves conseguiam cada vez mais popularidade com o tempo.

Assim como a maioria dos estilos musicais que surgem do underground, o acid morreu devido a um embaraçoso hype. Raves com bandas orientadas por guitarra (Happy Mondays, Stone Roses, Primal Scream) ainda aconteciam, apesar da proibição governamental, até que a polícia se tornou uma presença constante e sufocou os eventos. O fogo se alastrou e alternativas em outros locais da Europa e de outros continentes foram achadas. Dentro da área liberal dos estados de Benelux havia poucas restrições, e aqui algumas pessoas ouviram sobre algumas festas que aconteciam em algum lugar da Índia. As pessoas que já haviam ido a Goa trouxeram músicas com elas, e os europeus foram encorajados a irem para lá. O DJ Ray Castle organizou as primeiras festas por lá dominadas por trance em 1987. O DJ Antaro organizou sua primeira festa goa com alguns poucos iniciados no jardim da sua casa em Lüneburger Heide (Alemanha) em 1989.

Com o aumento da popularidade do techno na Europa, no final dos ano 80, a cruzada da música eletrônica estava apenas começando. Na Alemanha, especialmente em centros como Berlim (Dr. Motte, Westbam) e Frankfurt (Talla 2XLC, Sven Väth), sirgiu através do techno um novo tipo de cultura underground. A queda do muro de Berlim e a competição persistente com Frankfurt foram extremamente vitalizantes para ambas as cidades, o que levou ao surgimento de clubes como Dorian Gray/Omen e E-Werk em Berlim.

 

O contato constante com o Detroit Techno fertilizava a cena constantemente. Juan Atkins, Blake Baxter e Eddie Flashin' Fowlkes tocavam no Tresor e lançavam músicas através do selo do clube. Sob a supervisão de Ralf Hildenbeutel e Sven Väth em Frankfurt, surgiram os selos Harthouse e Eye Q Records, que lançaram, entre outras, faixas do Earth Nation, Kox Box e Der Drittle Raum, abrindo o caminho para o futuro nascimento da cena Goa.

 

Enquanto isso o selo MFS (Masterminded For Success) surgiu em Berlim com projetos por Cosmic Baby, Voov, Paul Van Dyj e Mijk van Dijk. O selo Superstition in Hamburg se tornou uma base de lançamentos para o techno e o trance, lançando músicas do Oliver Lieb (The Ambush, Paragliders, LSG, Spicelab).

 

A cena techno se estabeleceu na Inglaterra com DJs como Carl Cox, com a sua festa Ultimate B.A.S.E. (Londres), e grandes festivais de música eletrônica como Tribal Gathering começaram a surgir. O maior evento techno do mundo é o Love Parade, que reúne todos os anos milhões de pessoas pelas ruas de Berlim. (EDIT 2024.: Depois de uma edição desastrosa com algumas pessoas que morreram pisoteadas em 2010, os produtores da Love Parade decidiram não levar mais a festa adiante).

Enquanto grande parte dos produtores de techno se submetia ao hype do mainstream e trocavam inovação por posições rápidas nas paradas de sucesso, a cena psychedelic trance achava cada vez mais apreciação dos seguidores da saturada cena techno. Mas isso é um assunto que fica para a próxima edição.

BRASIL

Denis Kandle

A cena techno no Brasil chegou mais tarde, lá pelo final dos anos 80/início dos anos 90, inicialmente através do DJ Zé Roberto Mahr, que era comissário de bordo e tinha o privilégio de poder peneirar lojas de disco em Londres e Nova York várias vezes por ano. Na época ele tocava no Crepúsculo de Cubatão (Rio de Janeiro). Ele também tinha um programa na Rádio Fluminense FM, o Novas Tendências, onde algumas vezes ele tocou algumas faixas de techno, quando esse estilo era praticamente desconhecido por aqui.

No início dos anos 90 o Mercado Mundo Mix (Rio), uma feira de produtos alternativos, começou a usar o techno como trilha sonora dos seus eventos, o que levou muitas pessoas a conhecerem o estilo. Logo em seguida surgiram festas em parques de diversões como a BITCH, no Tivoli Park, e em galpões como Val-Demente, que rolava, entre outros locais, na Fundição Progresso, com DJs que tocavam techno, além de house. Enquanto isso, a boate Dr. Smith, no Rio de Janeiro, começou a fazer suas primeiras festas techno.

 

No Rio, o DJ Maurício Lopes inaugurou a festa Oops!, na Guetto, em Botafogo. Essa festa era frequentada por clubbers e tinha uma atmosfera muito legal, pois o hype do techno ainda não havia contagiado o mainstream e os mauricinhos e as patricinhas ainda não frequentavam festas eletrônicas (que para eles eram festas de gay e drogado). Também começaram a pipocar ótimas festas como a Hyper Club e o THC. O DJ Ricardo NS era o residente da festa After, que rolava, entre outros lugares, na Basement, um clube pequeno e abafado na Galeria Alaska, em Copacabana, Rio. A festa vivia lotada, e sempre começava a partir das 4 horas da manhã da madrugada de sábado pro domingo e rolava até o meio-dia.

 

O techno também invadia São Paulo com DJs como Mau Mau e Camilo Rocha. Lá surgiu o antológico Hell's Club, que também só vivia lotado e as festas também só começavam a partir das 4 horas da manhã. Em 97 foi lançado a coletânea Electronic Brasil, pelo selo do Mercado Mundo Mix. Esse foi um dos primeiros discos de música eletrônica brasileira a ser lançado comercialmente, e reunia músicas do Mau Mau, Habitants, Loop B, Level 202 etc.

Esta foi a época áurea da cena techno no Brasil. Havia realmente uma cena underground, mas a mídia, como sempre, resolveu estragar a festa. Uma novela da Globo tinha uma atriz fazia que fazia o papel de uma clubber totalmente estereotipada, e o senso-comum começou a fazer uma ideia errada dos clubbers. O jornal O Globo lançou uma matéria de capa no Segundo Caderno com o título "Techno - a onda do próximo verão". Muitos clubbers deixaram de frequentar as festas porque elas foram invadidas por playboys e pessoas que não tinham nada a ver. A Oops! acabou, o Hell's Club fechou e a Val-Demente se partiu em duas festas: a Val, que era voltada para o então chamado público GLS, e ainda tocava techno (infelizmente a festa não durou muito) e a X-Demente, que não toca techno e é frequentada 90% por gays-padrão-descamisados.

No Rio, a cena estava estagnada, com algumas casas noturnas que de vez em quando aportavam festas techno, como a Phunky Budah, em Ipanema, mas infelizmente essas festas não duraram muito tempo. A luz no fim do túnel surgiu com a abertura da boate Bunker 94, em Copacabana, no lugar onde antes era a boate gay Le Boy. Os clubbers voltaram a ter um espaço alternativo, com festas dedicadas totalmente ao techno como a Cubik, residida pelos DJs Mauricio Lopes e Ricardo NS (EDIT 2024: após alguns anos, a Bunker fechou e virou uma filial das Lojas Americanas...). Antes mesmo da Bunker abrir, o grupo BUM (Brazilian Underground Movement) começava a organizar festas na Baixada Fluminense e na zona norte do Rio, formada por DJs como Péricles, André Lima etc. Apesar do recente falecimento do seu fundador, o Péricles, o BUM continua na ativa.

Lá pela segunda metade dos anos 90 começaram a surgir as primeiras raves no estado de São Paulo. No Rio, a primeira rave foi a Bunker Rave, em 2000, que rolou na Fazenda dos Prazeres, em Vargem Grande. Também começaram a surgir raves nas areias de Ipanema quase todos os sábados. Atualmente existem várias casas noturnas em São Paulo que tocam techno; também há festas bacanas acontecendo nas principais capitais do país, como Curitiba, Goiânia, Recife, Campinas, Brasília e muitas outras. No Rio são poucas. Infelizmente a cena techno inflou e muitas outras casas noturnas dizem que tocam techno, mas na verdade estão apenas se aproveitando do termo, pois de techno essas festas não têm nada. Hoje em dia, techno, na concepção de muitas pessoas, é um tipo de música eletrônica comercial, descartável e com apelo pop que toca em rádios FM, uma parada nada a ver com o que a cena techno era originalmente. Mas felizmente ainda existem alguns oásis onde se pode dançar e ouvir Techno, com T maiúsculo, por favor.

O que achou do texto?
Deixe seu comentário
abaixo

página anterior: A GENIALIDADE DE MOZART
próxima página: JORNAL NACIONAL PROTEGE BUSH

VOCÊ TAMBÉM PODERÁ GOSTAR:

HISTÓRIA DO PSY TRANCE
Tudo começou em Goa...

ELECTRONICA TIMELINE
Desde os primórdios até hoje em dia

ASSINE PARA ATUALIZAÇÕES
SEJA INFORMADO EM PRIMEIRA MÃO SOBRE NOVAS EDIÇÕES 

Obrigado!

bottom of page